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Antes de entrar no plano da técnica do Karaté, há que
dar atenção aos princípios fundamentais, teóricos e
práticos, do Karaté, que são de uma importância
excepcional para quem se proponha abordar o estudo desta
arte. Dividiremos estes princípios em duas partes: a
parte física e a parte mental, embora as duas estejam
intimamente ligadas. Com efeito, se aprender-mos a
técnica do Karaté e não a executar-mos com o espírito,
essa técnica é apenas um conjunto de sóbrios e belos
movimentos, mas não o próprio Karaté. Por outro lado, o
espírito sem a técnica, por muita intensidade que
possua, jamais poderá ser eficaz no combate total.
Energia Dinâmica
Todas as técnicas do Karaté devem, depois de assimiladas, ser
executadas a fundo, quase ferozmente, no sentido de
libertar e acordar a energia latente. Esse é o meio de
obter a explosão de força concentrada ao mais alto grau.
Aqui, a vontade de cada um joga um papel mais importante
do que a simples força muscular pois são canalizadas
sobre um fim especifico todas as reservas musculares e
nervosas, sendo a tensão e a contracção do tipo
isométrico a base de obtenção de um poder, que cada um
possui latente mas que raramente é posto em execução. O
potencial atlético é realmente importante em Karaté? - A
resposta é não. O importante é a tensão posta no final
da execução da técnica e ao mesmo tempo a coordenação de
cada movimento. Aprendemos assim a bater com o punho ou
com o pé na zona onde a concentração é máxima. O factor
precisão na acção entra então em jogo.
Descontracção
A tensão que cito acima atravessa porém períodos
relâmpagos de descontracção. Pode parecer um paradoxo,
mas na realidade é possível atingir uma tensão em
descontracção, que consiste num estado de espírito em
que certos músculos e nervos se encontram
instantaneamente prontos a intervir à mínima solicitação
do "sentido",. E aqui digo sentido pois não é o
pensamento que intervém neste caso, nem mesmo o
consciente. Esta é uma noção difícil de exprimir por
escrito, pois é tão subtilmente intuitiva, que só quem a
sente a pode compreender inteiramente. Com efeito, todos
sabemos a importância da "ligação" do bloco, da acção em
bloco, e as "nuances" atravessadas por exemplo no recuo
veloz do Kokutsu acompanhado do bloqueio e a contracção
e descontracção atravessada pelos membros inferiores e
superiores ao passar ao contra ataque em força.
Respiração
As fases de força e fraqueza que o corpo
atravessa são devidas à respiração. Quando expiramos,
encontramo-nos vulneráveis a qualquer ataque. Dai o
conselho de concentrar sempre a respiração no ataque e
contrair a respiração abdominal no momento do impacto.
Nunca, em Karaté, se deve agir de maneira desordenada.
Uma perfeita coordenação e um perfeito equilíbrio são
absolutamente necessários no que respeita à inspiração e
expirarão. Daí ser por vezes monótono, para os
iniciados, o tipo de treino inicial na posição zazen,
onde se aprende, durante longo tempo, a respirar. Em
combate de Karaté a respiração não deve transparecer ao
adversário. A respiração deve ser discreta, excepto, é
claro, no caso das respirações ventrais sonoras. Para o
iniciado, o ler que a respiração pode ser executada com
o ventre, pode parecer estranho. Aí entramos no campo do
Karaté, pois a respiração pode exteriorizar-se por um
grito gutural e breve, destinado mais a contribuir para
a explosão de energia do que a assustar ou desorientar o
adversário. Esse grito chama-se o "Kiai", que não é mais
do que o estado de tensão interna que preside à execução
do grito.
O Kiai
O Kiai pode ser sonoro ou silencioso e é um
estado psicológico, mais do que um simples berro
gutural. Ele é a expressão violenta duma tensão mental e
física que atingiu o paroxismo, o apogeu. Esse grito é o
símbolo da explosão da dinâmica física e facilita a
concentração total na acção. O Kiai deve sair das
profundezas dos abdominais e não unicamente das cordas
vocais. O que a maioria dos iniciados, e mesmo certos
cintos avançados, fazem julgando ser o Kiai é na maioria
das vezes um simples grito prolongado que é mais
ridículo do que inibidor do espírito adverso. O
verdadeiro Kiai é usado com parcimónia e só nos momentos
exactos da acção total. Todavia é tão perigoso usá-lo
descuidadamente como prescindir dele, principalmente nos
Katas Heians e Tekkis. O Karaté é a procura da sensação
e não da beleza e perfeição do gesto. O próprio Kiai
deve ser executado em sensação e não mecanicamente, como
meio de marcação do exercício executado. A um nível mais
avançado não é raro ver-se a paralisação do ataque
oponente através do Kiai. Certos mestres e instrutores
conseguem mesmo o desmaio do adversário, por meio do
Kiai. O Kiai é pois um meio de inibição e ao mesmo tempo
usado como reanimação por meio da aplicação da técnica
do Kuatsu, (técnica de recuperação e reanimação de
desmaio provocado por pancadas, luxações e projecções,
etc.). Para chegar ao estado psicológico necessário à
explosão do Kiai é pois necessária não só uma execução
intensa das técnicas, em potência, mas também uma
disponibilidade de espírito e contracção ventral que
permita a explosão imediata da energia acumulada num
instante preciso. Procurar, sobretudo, que o som
provenha da parte baixa da região abdominal.
A Concentração
Sem verdadeira, positiva e treinada concentração
mental, não há karateca válido, como atrás dissemos. Sem
o espírito, a eficácia da técnica arrisca-se a severas e
decepcionastes desilusões. O que é afinal a concentração
em karaté? Aqui abordo um outro factor importante: o
domínio pessoal, o chamado auto domínio. Ora um karateca
deve, em todas as circunstâncias, ficar calmo,
tranquilo, sem qualquer atitude ou gesto ou contracção
visível que deixe adivinhar as suas intenções. Esse tipo
de concentração deve e pode ser usado no treino do "dojo",
e na vida quotidiana. Lembramos a máxima: aquele que
está bem preparado, não o parece. Esta é a atitude do
karateca. A tensão é dissimulada numa concentração
disponível, sem a mínima excitação que deforme a
realidade e impeça a percepção exacta, instintiva, do
acontecimento que se produza. Por outro lado parece um
paradoxo entrar em acção com a energia explosiva do
Karaté e manter o espírito lúcido e o sangue frio. Como
conseguir essa maravilhosa indiferença frente a situação
desesperada? Como conseguir esse vazio de espírito, esse
desprendimento aparente, quando toda a energia física é
desencadeada? A resposta só a podem os iniciados
encontrar através da prática real do Karaté. A
concentração está em contradição aparente com a
disponibilidade de espírito uma vez que, frente ao
adversário, o karateca não deve fixar nenhum ponto
preciso para assim se aperceber e registar imediata e
intuitivamente a menor abertura na sua defesa. É certo
que a maioria dos mestres e instrutores são unânimes em
aconselhar a concentração nos olhos do adversário para
assim aperceber as suas intenções, mas o verdadeiro
sistema, o ideal, é a concentração do olhar ao nível do
meio dos olhos, conservando o olhar vago ou tentando
olhar através do rosto, mas sem fixar as pupilas do
oponente. Este método permite "sentir" o adversário da
cabeça aos pés.
Muchimi
Este
é um movimento executado de uma forma pesada e
"pegajosa", ao mesmo tempo uma acção suave e contínua.
Por exemplo, Muchimi Chudan Hiki Uke, é uma técnica
Circular, do tipo defesa de agarrar, utilizando um
movimento "pesado" mas fluido, que parece aderir ao
oponente. Para desenvolver correctamente o Muchimi
deve-se pôr forte ênfase no treino do baixo abdómen.
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